sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A massificação do discipulado cristão


GOSTARIA de entender por que tantas vezes nós cristãos não nos detemos de forma apropriada ante as Escrituras para obter delas o parâmetro fundamental de orientação em tudo que se refere à vida. E com o discipulado não é diferente.

EXPLICANDO: As Escrituras do NT deixam transparecer um direcionamento sobre o que significa o verdadeiro discipulado. Este se dá na via dos relacionamentos pessoais. Que por sua vez desemboca em uma prática discipulante em que aquele que recebe o discipulado e o discipulador devem caminhar lado a lado, encontrando-se com regularidade para que ocorra a necessária instrução concernente à vida de imitação que todos devemos ter da Pessoa bendita de nosso Senhor (1Co 11.1; Ef 5.1).

TODAVIA tenho observado um conceito errôneo de discipulado: aquele que é realizado às expensas do indivíduo, ou seja, é realizado em grupos. Também se constata nesse modelo, uma imposição de conceitos e ideias sobre o que seria a vida cristã e que não permite o espaço devido para aconteça a necessária reflexão daqueles que estão sendo "discipulados". Ora, isto de forma alguma é discipulado, com tudo de significante e bíblico ele em si contém, mas é somente uma instrução cristã para um grupo de pessoas !

É ÓBVIO que, se o modelo que acabei de descrever pode proporcionar um ensino bíblico relevante e de qualidade para os membros do grupo, estará ajudando de alguma forma ao novo crente na iniciação de sua vida em Cristo. Porém, existe uma dimensão mais profunda, onde as marcas do Espírito Santo na vida do neo-cristão ocorrerão de forma condizente e duradoura e isto se dá exatamente no discipulado um-a-um.

MUITOS PODEM até declarar: "Mas não temos pessoas suficientes para ministrar aos novos convertidos." É verdade que, em algumas igrejas, não há crentes maduros em suficiência para fazer essa obra tão necessária: instruir pessoalmente os novos crentes na fé em Jesus. Outra situação é (e isso é bem pior), quando até existe um considerável número de crentes para fazer o trabalho, mas não há disposição da parte de muitos. Assim, a igreja vai caminhando em uma via errônea no que tange a um discipulado mais saudável e ideal, biblicamente falando.

O NOVO TESTAMENTO, notadamente nos textos paulinos, demonstra de forma cabal a efetividade do ensino individual. Notem que não estou menosprezando de forma alguma o ensino em grupo. Eu mesmo gosto muito de ministrar a grupos. O Senhor Jesus ministrou a grupos e a indivíduos, assim como o apóstolo Paulo, por exemplo. Mas quero ressaltar que, a importância do discipulado cristão é tão grande e tão urgente, que somente na individualização do ensino ocorrerão as transformações essenciais na vida do discípulo que o Espírito Santo anseia trabalhar.

A DISTINÇÃO nesse assunto é fundamental. Isto porque, uma coisa é o ensino bíblico no templo, no culto, a congregação reunida diante de seu pastor, recebendo o ensino bíblico fundamental. O mesmo ocorrendo na Escola Bíblica Dominical, como também em simpósios, seminários, institutos bíblicos, faculdades teológicas, enfim, esse ensino é de grande importância e, repito, eu mesmo tenho um carinho especial por ele, defendo o ensino na Igreja em todos os níveis e alcances, acredito que o ensino bíblico-teológico sistemático para grupos de pessoas deve ser muito mais incentivado na Igreja. Mas, o discipulado bíblico cristão se efetiva plenamente na dimensão mestre-discípulo, ou seja, um-a-um.

DISCORRI brevemente sobre essa questão no texto, "Os três possíveis níveis de discipulado" (16/10/2011), onde escrevi que o discipulado se dá, em primeiro lugar, no nível da grande multidão ou grande grupo, depois afirmei que o discipulado também ocorre no nível dos pequenos grupos, e finalmente, disse que o discipulado se dá, idealmente, em nível individual. Taxativamente, esse último nível é justamente o mais trabalhoso, o que dispende maior quantidade de tempo, e tempo é algo um tanto quanto escasso em nossos corridos dias. Mas, temos a obrigação de nos amoldarmos ao que a Bíblia diz e não considerarmos a ordem presente do  presente século (Rm 12.2). O Senhor nos capacitará e dará graça para fazermos aquilo que Ele ordenou em sua Palavra. Veja como o apóstolo Paulo discorre sobre a mutualidade dos membros do Corpo de Cristo em 1Co 12.12-31, e ele é bem específico - "...tenham os membros igual cuidado uns dos outros" (v.25b).  

ENTENDO que nosso Senhor Jesus Cristo ministrou na dimensão dos três níveis, para a grande multidão (Mc 2.13), para o pequeno grupo (Mc 3.13,14) e para o indivíduo (Lc 5.27,28). Jesus não queria uma multidão de seguidores atrás de si (Jo 6.26,27,60,66). Ele sempre quis que aquele que lhe seguisse, o fizesse pelos motivos corretos. Para tanto, Ele não economizava nas palavras quando tinha de chamar a atenção de seus discípulos quanto a este fato (Jo 6.67).

ATENTEMOS POIS para a beleza de uma vida autêntica de discipulado, biblicamente respaldada. Nossa sociedade conspira contra uma vida cristã plena de significado. Nossa sociedade tem como uma de suas bases a massificação de ideias, conceitos, hábitos e costumes. Mas nós somos servos de Deus e discípulos de Cristo fomos chamados para andar na contra-corrente deste mundo. E, para isso, necessário se faz um discipulado autêntico e individualizado. O mestre, o discipulador, já possuindo uma caminhada comprovada na presença do Senhor, com muita graça, unção e capacitação espiritual, além de conhecimento das Escrituras, certamente é algo por demais precioso e assim, não se deve tratar o discipulado de forma massificada, ou seja, sem dar a devida atenção a um discípulo de cada vez. Esse discipulador até pode discipular mais de uma pessoa, obviamente, mas que seja em dias diferenciados, visto que Deus deseja tratar com cada um de nós de forma pessoal e intransferível (Jo 17.3).

O DISCIPULADO CRISTÃO é algo para ser tratado de maneira verdadeiramente bíblica. Vamos refletir pois sobre o que estamos fazendo enquanto Igreja de Jesus, porque muitas vezes os modelos de discipulado que são estabelecidos (e não estou aqui falando dos motivos, isto é da alçada de Deus) não decorrem de uma profunda reflexão da liderança sobre o que a Bíblia realmente demonstra. Muitos modelos são definidos pelo pragmatismo, ou seja, se estiver mantendo a Igreja cheia de pessoas, é o que realmente importa. Mas gostaria de indagar: Desde quando uma igreja com os bancos cheios de pessoas significa realmente de que essas pessoas são de fato verdadeiros discípulos de Jesus? Para serem discipuladas efetivamente, devem caminhar não só unidos uns aos outros na grande congregação, na grande reunião, mas também e, acima de tudo, caminharem com discipuladores idôneos para ensinarem adequadamente os fundamentos da verdadeira vida em Jesus. O apóstolo Paulo escreveu: "E o que de mim entre muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem a outros" (2Tm 2.2). Paulo, mestre e discipulador de Timóteo, ensinava-lhe acerca da importância de reproduzir em outros discípulos o que ele mesmo havia recebido de Paulo individualmente. Este é um discipulado autêntico e integral.

QUE O SENHOR JESUS dê graça a todos nós para compreendermos as verdades de Sua Palavra e praticarmos um discipulado não-massificante, não moldado aos padrões pragmáticos de nossos conturbados dias. Soli Deo Gloriae !!!


5 comentários:

Claudia Ramalho disse...

Muito oportuno seu texto !
Na verdade, creio que esta massificação do discipulado é fruto de uma igreja mundana e capitalista onde a conquista de resultados é muito mais importantes do que a formação do indivíduo. O recurso a técnicas de vendas,o uso de abordagens comuns a empresas americanas ( Avon, Amway, Tupperware, só pra citar algumas)e a formação de "pirâmides"não são de forma alguma o verdadeiro discipulado. Hoje, este não interessa à Igreja como a conhecemos, pois pressupõe envolvimento e compromisso, o que ninguém mais quer em nossa sociedade hedonista do prazer total e lucro fácil.
Abç.

Observatório Teológico disse...

Concordo com você Cláudia, seu diagnóstico está correto, grande abraço !!!

Evangelina Evangelista disse...

Eu como evangelista so faço discipulado individual, e confesso é muito melhor,é demorado, mas prefiro crente de qualidade do que quantidade.

Roberta Chardonnens disse...

Sou totalmente de acordo com você, querido amigo. Nosso mundo está caminhando cada vez mais para a massificação e esse contato "face to face" se torna cada dia mais rara. Faço o discipulado individual e incentivo outras pessoas a fazerem o mesmo, além do convívio na Igreja e nos grupos, claro. Um abração e que Deus continue a te inspirar e nos abençoar.

Observatório Teológico disse...

Obrigado Evangelina e obrigado Roberta por seus preciosos comentários e que sejamos discipuladores conforme a Palavra de Deus ordena que sejamos para a glória de Deus !!!

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